A Amazônia é uma região com grande potencial turístico, atraindo visitantes do mundo todo por suas paisagens naturais, culinária e cultura singulares. No entanto, o chamado turismo predatório tem afetado muitas cidades da região, pois ele desconsidera as características ambientais e culturais das localidades e apenas explora os recursos disponíveis, deixando para trás rastros de destruição ambiental, cultural e econômica para as populações que vivem nas comunidades mesmo após os períodos de alta demanda turística.
O turismo sustentável surge como uma resposta aos impactos negativos do turismo predatório, buscando preservar o meio ambiente, impulsionar o desenvolvimento econômico local e proteger o patrimônio cultural das populações. Além disso, esse modelo de experiência turística desempenha um papel crucial na luta contra a crise climática, combatendo o desperdício de recursos, a perda da biodiversidade e valorizando as áreas de proteção ambiental.
Foto: Joyce Ferreira/Acervo Pessoal
O Turismo de Base Comunitária, ou TBC, é uma alternativa ao turismo predatório que promove o engajamento das comunidades locais e sua participação ativa na gestão e execução das atividades turísticas. “O TBC é um modelo em que a comunidade assume a autogestão da experiência turística, sendo protagonista da ação e guardiã de sua própria narrativa. Isso garante que a o conhecimento e os recursos gerados permaneçam com os atores locais, evitando apropriações externas.”, comenta Joyce Ferreira, turismóloga com experiência na implementação de Turismo de Base Comunitária, “Então, o TBC vem para trazer essa pessoa para a linha de frente, para ela ser protagonista da própria história.”
O TBC é uma ferramenta para o desenvolvimento local sustentável, valorizando a cultura e os recursos naturais. O Plano Nacional de Turismo (PNT) inclui o TBC como prioridade, com ações para estruturar roteiros, capacitar comunidades e promover a comercialização de produtos e serviços turísticos, fortalecendo a governança do turismo de base comunitária com a participação das comunidades, governo e outras partes interessadas.
Foto: Boaventura Júnior/Acervo pessoal
Boaventura Júnior, conhecido como Boá, é um dos 1.500 habitantes da Ilha do Combu, tendo crescido em meio à rica biodiversidade da região. Seu pai administrava um restaurante à beira do Furo da Paciência, que fechou em 2017. Na época, Boaventura trabalhava na capital paraense, mas decidiu retornar às suas raízes no Combu, promovendo oficinas e ações sociais na comunidade.
“Eu lembro que várias vezes nessas oficinas que eu comecei a fazer, eu continuava aquele pensamento: Como eu vou fazer esse turismo de base comunitária? E das oficinas, as pessoas começaram a ter curiosidade de querer almoçar aqui,” afirma Boá, que pouco tempo depois acabou reabrindo o restaurante do pai. Renomeado como "Boá na Ilha", que é hoje referência em Turismo de Base Comunitária na região.
O relato de Boá demonstra um aspecto muito importante para o TBC: a preservação de saberes e caracterização dos ambientes. Boá traz consigo um reconhecimento identitário muito forte com a Ilha do Combu, que é indispensável para a maneira como ele decide interagir com os recursos locais. Em contrapartida, Joyce observa que muitos jovens estão se desinteressando pelos ofícios locais e enfatiza a importância de abordar essa questão no contexto da implementação do Turismo de Base Comunitária: “muito do artesanato, principalmente da cerâmica, é perdido porque os jovens não querem mais trabalhar nesse ofício. Então, o TBC vem justamente para resgatar, para mostrar o quanto aquilo é importante para a família, para a história, para o estado de uma forma geral, para a sociedade”, fala. A preservação dos saberes e tradições é importante para evitar o processo de descaracterização das comunidades.
Outra herança importante da TBC é a conscientização dos turistas. A família de Roberta Cartágenes acompanhou o desenvolvimento do restaurante “Boá na Ilha” desde o começo, e estar presente nesses processos, assim como frequentar o estabelecimento, a ajudou a entender o que é turismo sustentável e porquê este é imprescindível para a comunidade: “Depois que a gente começa a entender o que é isso e qual é o impacto disso na natureza, na sociedade, na comunidade, a gente passa a enxergar com outro olhar, não só na Amazônia, mas fora dela também”, diz Roberta.
O Turismo de Base Comunitária e a COP 30
A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, COP 30, acontece no mês de Novembro em Belém, e segundo Joyce, o evento tem um potencial muito grande para promover o TBC na Amazônia.
“A COP vai estar aqui justamente para debater a crise climática, e pensando nesse assunto, na sociedade e nas comunidades que ficam à margem dessas oportunidades econômicas que grandes centros econômicos têm. O TBC vai favorecer essas pessoas para dar oportunidade de uma geração de renda e também de uma geração de renda complementar”, informa Joyce. Do mesmo modo, ela acredita que o Turismo de Base Comunitária pode proporcionar aos turistas experiências imersivas, únicas e diversificadas.
Por outro lado, Boá expõe que obras voltadas para a COP 30, que tem como objetivo atrair turistas para a Ilha do Combu, estão acelerando o processo de desarborização da ilha, prejudicando a agricultura local dos moradores: “Esse legado da COP é duvidoso: que legado é esse? Vai ficar para quem? A população vai usufruir desses espaços, vai usar, de verdade?”
De acordo com Joyce, a falta de planejamento estratégico nas obras e políticas pode resultar em um legado negativo significativo da COP, com impactos que abrangem áreas tanto ambientais quanto econômicas: “A gente espera que essa demanda, que vem da COP 30, não seja efêmera, que o governo e as iniciativas que estão impulsionando o turismo em Belém para o evento pensem também a longo prazo, porque os turistas vão vir para o período da COP, mas a COP termina, e essa mão de obra que está sendo capacitada? Ela terá, de fato, oportunidade para se manter no mercado? E os espaços que estão sendo construídos agora, serão integrados à cidade promovendo lazer, cultura e arte para população?”, questiona.
Sobre turismo predatório na região metropolitana de Belém
Apesar do avanço na integração do turismo sustentável na Ilha do Combu, Boá aponta que eles ainda enfrentam problemas com o turismo predatório no local. “A gente sempre questiona isso aqui na ilha: de que forma a gente vai conseguir ter controle disso? E hoje, também, querendo ou não, a gente já percebe que muitas empresas maiores estão vindo para cá. E isso, de certa forma, acaba também descaracterizando a nossa cultura”, declara Boá.
Além disso, segundo Boá, o grande fluxo de pessoas que usam lanchas como meio de transporte na região acaba afastando populações de peixes, o que afeta na geração de renda de diversas famílias do Combu e agrava a insegurança alimentar.
