Os efeitos do aquecimento global estão cada vez mais presentes no cotidiano. Desde a Revolução Industrial, o modelo de produção baseia-se na utilização de combustíveis fósseis para a geração de energia. Hoje, mais de dois séculos depois, os processos produtivos precisam descarbonizar, ou seja, reduzir as emissões de gases que piorem ainda mais as alterações climáticas. Descarbonizar virou sinônimo de sobrevivência de toda e qualquer forma de vida na Terra.
Desde o acordo de Paris, tratado internacional para reduzir as emissões de gases do efeito estufa (GEE), assinado há uma década, fala-se em descarbonização. Em meio a muitas pesquisas e desenvolvimento de soluções diversas, muitas empresas já estão fazendo o dever de casa e encontrando soluções factíveis e urgentes para conseguir reduzir a emissão de carbono nas operações.
Um exemplo é a Hydro, líder na produção de alumínio, que investiu R$ 1,3 bilhão no processo de transição energética na Alunorte, planta da empresa que refina bauxita para a produção de alumina, localizada em Barcarena, no Pará. A substituição do uso de óleo combustível pesado para gás natural na produção já foi 100% concluída e representa um marco para a ambição da companhia de reduzir suas emissões em 30% até 2030. Com a utilização de gás natural, a empresa espera alcançar uma redução anual de 700 mil toneladas de CO₂.
Outra alternativa encontrada pela Hydro para reduzir as emissões de gases é a utilização de caldeiras elétricas. Atualmente, a Alunorte opera com três caldeiras elétricas para a produção de vapor, sendo uma em operação desde 2022 e duas novas que entraram em funcionamento no final de 2024. Estas caldeiras, que operam com energia renovável, têm emissão zero de carbono. O investimento da companhia foi de R$ 318 milhões. De acordo com a empresa, as três caldeiras elétricas, somadas, representam uma redução de até 550 mil toneladas de CO₂ por ano.
“A chegada do gás natural na região abriu portas para a atração de outros empreendimentos e contribuiu para o desenvolvimento econômico local. Com estes dois projetos já implantados e mais a melhoria na performance energética da planta, a Alunorte chega a uma redução de 35% nas emissões de CO2 da refinaria, o que equivale a cerca de 1,4 milhão de toneladas de emissões de carbono em relação à referência de emissões de 2017. Todos estes investimentos evidenciam que Alunorte está na vanguarda da descarbonização na indústria do alumínio”, afirma Carlos Neves, vice-presidente Sênior/COO de Bauxita & Alumina da Hydro.
Novas empresas com emissões reduzidas de CO₂
A Aço Verde do Brasil (AVB) já foi implantada com o DNA da descarbonização. A empresa produz aços longos e destaca-se por ser a siderúrgica com a menor emissão de CO₂ do mundo. Em seu processo produtivo, a AVB chega a emitir cerca de 0,2 tonelada de CO₂ por tonelada de aço produzido, um índice significativamente abaixo da média global, que ultrapassa 2 toneladas de CO₂ por tonelada de aço.
“Nosso objetivo é continuar avançando na descarbonização e, por meio de melhorias tecnológicas e investimentos em eficiência energética, reduzir ainda mais nosso impacto ambiental. Embora o conceito de "emissão zero" na siderurgia seja um desafio técnico, estamos comprometidos com a redução de nossas emissões residuais e a ampliação do uso de fontes renováveis, reforçando nossa posição de referência na indústria”, destaca Sandro Raposo, diretor de ESG e Novos Negócios da Aço Verde do Brasil.
Na sede da empresa, em Açailândia, Maranhão, o processo produtivo é sustentado pelo uso de energia renovável e biomassa. Eles utilizam 100% de carvão vegetal, substituindo o coque mineral usado tradicionalmente na indústria siderúrgica. Em 2023, a empresa inaugurou a usina termelétrica, movida a gás de alto-forno (biogás), que aproveita os gases gerados no processo produtivo dos altos-fornos, empregando 100% de biocarbono (carvão vegetal) na produção. A unidade tem capacidade de gerar até 10,75 MWh de energia elétrica renovável, o que daria para abastecer 70 residências por cerca de um mês. O sistema é certificado pelo I-REC, sigla para International Renewable Energy Certificate, ou Certificado Internacional de Energia Renovável, sistema global que atesta a origem renovável da energia consumida por uma empresa.
O processo de descarbonização não é tarefa fácil, mas pode gerar competitividade para as empresas. “A principal vantagem de investimento nos processos produtivos é a combinação de sustentabilidade e competitividade. Empresas que saem na frente nessa transição garantem maior resiliência diante das mudanças regulatórias, como a taxação de carbono em mercados como a União Europeia. Além disso, o consumo de energia renovável e processos mais eficientes reduzem custos operacionais no longo prazo”, enfatizou o gestor da AVB.
Atualmente, a Aço Verde do Brasil utiliza 100% de carvão vegetal oriundo de florestas de eucalipto plantadas, onde todo o processo de produção do biocarbono é auditado, o que garante um ciclo sustentável, além de atender clientes que exigem um aço com baixa emissão de carbono, agregando valor ao produto e fortalecendo a marca da empresa no mercado.
Brasil: potencial para ser o protagonista na descarbonização de processos
O Brasil já é reconhecido mundialmente por ter fontes de energia limpa, como as usinas hidrelétricas, os parques eólicos e solares, e ainda a biomassa, ou seja, pelo menos 49,1% da energia utilizada no país é renovável. Agora, diante da urgência de descarbonizar ainda mais as operações industriais para conter as consequências das alterações climáticas, o Brasil pode ser protagonista de projetos eficientes neste processo e servir de modelo para o mundo.
Esse tema será um dos principais assuntos tratados na Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP), que em sua 30ª edição será realizada, pela primeira vez na história, em Belém, cidade da Amazônia.
“Durante a COP 30, todo o mundo estará voltado para Belém, para a Amazônia. Descarbonizar é urgente e imperativo para todos nós. Existem projetos que podem ser executados para a descarbonização, mas todos envolvem investimentos e vontade de fazer acontecer de fato. E a COP na Amazônia trará um choque de realidade para o mundo, seja porque é um bioma muito importante, seja porque é um dos mais impactados pelas mudanças climáticas. O processo de descarbonização é irreversível e urgente”, afirma Isabela Morbach, cofundadora e diretora da CCS Brasil, associação que visa fomentar as condições econômicas, técnicas e regulatórias para a implementação em larga escala de projetos de Captura e Armazenamento de Carbono (CCS) para o Brasil.
Governo do Pará: ações em andamento
O governo do Pará não detalhou os projetos que estão sendo realizados para incentivar a descarbonização de empresas instaladas no Estado, mas, por meio da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas), enviou nota ao Inside amz indicando ações que estariam em andamento. Segue a nota na íntegra.
“A Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) avançou na integração das agendas ESG (ambiental, social e governança) com o licenciamento ambiental, promovendo ações que geram impacto social positivo, aprimoram a qualidade dos estudos ambientais e impulsionam a descarbonização dos processos produtivos.
A necessidade de alinhar as práticas ESG das empresas às diretrizes do Estado está inserida em políticas públicas estratégicas, como o Plano Estadual Amazônia Agora, o Programa Regulariza Pará, o Territórios Sustentáveis, o Programa de Ordenamento Territorial da Pesca, o Programa de Restauração Florestal e o Programa Estadual de Bioeconomia.
As iniciativas desenvolvidas pela Semas atuam diretamente na mitigação das emissões de carbono associadas ao uso da terra, do solo e das florestas – principal fonte de emissões no Estado. Os dados sobre emissões relacionadas ao desmatamento e ao uso da terra estão disponíveis para consulta pública no Inventário Nacional de Emissões e no Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG).”
